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Guia do problema

Dano moral no seguro de celular e na garantia estendida: quando o TJCE concede e quando nega

Por Lucas Monteiro de Araújo Magalhães, advogado, OAB/CE 49.312Fortaleza/CE, atuação nacionalAtualizado em 16/10/2026
Resposta diretaNem toda recusa do seguro de celular ou da garantia estendida gera dano moral. O TJCE tem concedido valores, em geral, entre R$ 500,00 e R$ 3.000,00, quando há peregrinação do consumidor, tempo perdido (desvio produtivo), produto essencial ou descaso; e tem negado quando vê mero descumprimento contratual. A indenização material, essa sim, é o centro da maioria das ações.

A regra geral

O dano moral indeniza a lesão a direitos da personalidade: tranquilidade, tempo, dignidade. No seguro, os tribunais costumam distinguir duas situações. A recusa indevida pura e simples, em que o consumidor é indenizado pelo valor do bem, mas sem dano moral, por ser “mero descumprimento contratual”. E a recusa com algo a mais: várias tentativas frustradas, idas ao Procon, produto essencial parado, descaso evidente. Nesse segundo grupo, o dano moral aparece.

O fundamento é a responsabilidade do fornecedor de serviços pelos danos causados por defeito na prestação, inclusive informação inadequada:

Art. 14. O fornecedor de serviços responde, independentemente da existência de culpa, pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos relativos à prestação dos serviços, bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua fruição e riscos.

Lei nº 8.078/1990 (Código de Defesa do Consumidor), art. 14 (fonte oficial). Conferido em 16/10/2026.

Quando o TJCE concede

A teoria do desvio produtivo, que indeniza o tempo útil perdido para resolver um problema criado pelo fornecedor, aparece em vários acórdãos. Um eletrodoméstico voltou da visita técnica com arranhões e sem conserto, e a reclamação no consumidor.gov.br não foi atendida: dano moral de R$ 3.000,00.

Favorável ao segurado
TJCE · 1ª Turma Recursal · Recurso Inominado nº 3000753-08.2022.8.06.0222 · julgado em 28/07/2023

Eletrodoméstico devolvido arranhado e sem conserto: dano moral pelo tempo perdido

Um eletrodoméstico apresentou defeito na vigência da garantia estendida, a visita técnica não resolveu e o equipamento voltou com arranhões e manchas de tinta. A reclamação no consumidor.gov.br também não foi atendida pela seguradora. A Turma reconheceu dano moral pela perda do tempo útil, com base no desvio produtivo.

"AÇÃO DE OBRIGAÇÃO DE FAZER C/C INDENIZAÇÃO POR DANOS MATERIAIS E MORAIS"

Numa bicicleta comprada para transporte pessoal, com vício em dois meses e estorno só depois da ação, a 1ª Turma Recursal aumentou o dano moral de R$ 1.000,00 para R$ 3.000,00.

Favorável ao segurado
TJCE · 1ª Turma Recursal · Recurso Inominado nº 3000653-37.2024.8.06.0043 · julgado em 27/04/2026

Bicicleta com vício e garantia estendida: estorno só após a ação e dano moral maior

A consumidora comprou uma bicicleta para transporte pessoal com garantia estendida e o produto apresentou vício com cerca de dois meses de uso. As reclamações administrativas não foram atendidas e houve apenas estorno parcial após o ajuizamento da ação. A Turma reconheceu o dano moral e aumentou o valor.

"AÇÃO DE RESCISÃO CONTRATUAL C/C REPARAÇÃO POR DANOS MORAIS E MATERIAIS. COMPRA DE BICICLETA PARA TRANSPORTE PESSOAL"

E a assistência técnica que cobrou um laudo inútil para acionar a garantia estendida, depois de várias tentativas frustradas, foi condenada a devolver o valor e a pagar R$ 3.000,00 de dano moral.

Favorável ao segurado
TJCE · 1ª Turma Recursal · Recurso Inominado nº 3000216-98.2024.8.06.0009 · julgado em 24/07/2025

Laudo cobrado para acionar garantia estendida sem utilidade: devolução e dano moral

A tela de um celular apresentou defeito e a assistência técnica autorizada cobrou por um laudo exigido para acionar a garantia estendida, documento que não serviu para o ressarcimento pela seguradora. Depois de várias tentativas frustradas de solução, a Turma condenou a assistência a devolver o valor do laudo. Fixou dano moral pelo desvio produtivo, sem responsabilizar a fabricante.

"AÇÃO INDENIZATÓRIA. APARELHO CELULAR LEVADO A CONSERTO EM ASSISTÊNCIA TÉCNICA AUTORIZADA. NECESSIDADE DE LAUDO PARA ACIONAMENTO DO SEGURO GARANTIA ESTENDIDA"

Quando o TJCE nega

Em vários casos em que a cobertura foi reconhecida, o dano moral foi negado. Num celular comprado com seguro numa grande rede varejista, a exclusão do furto simples foi declarada abusiva, mas o dano moral foi afastado como mero descumprimento.

Favorável em parte
TJCE · 1ª Turma Recursal · Recurso Inominado nº 3001969-83.2024.8.06.0173 · julgado em 27/06/2025

Celular com seguro na loja: exclusão do furto simples é abusiva, mas sem dano moral

Um celular comprado com seguro numa grande rede varejista foi furtado e a indenização foi negada por se tratar de furto simples. A Turma considerou abusiva a cláusula limitativa, por falha no dever de informação, e condenou a varejista a pagar a indenização deduzida a franquia de 25% prevista no contrato. Negou o dano moral por mero descumprimento contratual.

"AÇÃO DE COBRANÇA DE INDENIZAÇÃO SECURITÁRIA CUMULADA COM COMPENSAÇÃO DE DANOS MORAIS E MATERIAIS"

O mesmo ocorreu num seguro de celular de 2022, com exclusão abusiva do furto simples e sem prova de abalo à personalidade.

Favorável em parte
TJCE · 2ª Turma Recursal · Recurso Inominado nº 3000224-62.2021.8.06.0015 · julgado em 04/07/2022

Exclusão do furto simples no seguro de celular é abusiva, mas sem dano moral

O celular segurado foi furtado e a seguradora negou a cobertura por ser furto simples, risco expressamente excluído. A Turma considerou abusiva a cláusula, por falha no dever geral de informação ao consumidor. Negou o dano moral, por falta de prova de abalo aos direitos da personalidade.

"SEGURO DE APARELHO CELULAR. CLÁUSULA LIMITATIVA. OCORRÊNCIA DE FURTO SIMPLES. NEGATIVA DE COBERTURA POR PARTE DA SEGURADORA SOB A ALEGAÇÃO DE RISCO EXPRESSAMENTE EXCLUÍDO DA PROTEÇÃO SECURITÁRIA"

A linha que separa os dois grupos não é fixa e varia entre as Turmas Recursais. Por isso, o pedido de dano moral deve vir acompanhado da descrição concreta do que você passou, com datas e documentos.

O que as decisões da base mostram

Nos acórdãos da base, o dano moral foi concedido em situações como exclusão abusiva do furto simples de pessoa idosa, falha conjunta da assistência e da seguradora na garantia estendida, desvio produtivo do consumidor, alegação de oxidação sem prova de mau uso, notebook com vício recusado e venda de seguro que não estava vigente. Quando concedido, o valor ficou, em geral, entre R$ 500,00 e R$ 3.000,00, com casos isolados de até R$ 6.000,00.

Essa faixa apenas descreve decisões passadas, não serve de previsão para nenhum caso e não substitui a análise do contrato e das provas. O dano moral pode ser negado mesmo quando a recusa é indevida.

Repare que os maiores valores aparecem quando houve recusa reiterada de reparar um bem caro ou essencial, ou quando a loja vendeu um seguro que nem estava vigente. Os menores aparecem quando o próprio consumidor pediu pouco ou quando a falha foi pontual. O tribunal também reduz valores fixados em primeiro grau quando os considera altos para o caso, como ocorreu na garantia estendida negada por oxidação. Em outras palavras: a prova do transtorno é o que mais pesa, e é ela que você precisa organizar desde o primeiro contato com a seguradora.

Como fortalecer o pedido

  • Registre todas as tentativas de solução: protocolos, e-mails, conversas, datas.
  • Mostre o impacto: produto essencial (geladeira, máquina de lavar, celular de trabalho), dias sem o bem, gastos extras.
  • Reclame no consumidor.gov.br e no Procon antes da ação; a falta de resposta reforça o descaso.
  • Peça o dano moral de forma fundamentada, sem exagero; pedidos desproporcionais costumam ser reduzidos.
  • Lembre que o pedido principal é o material: o valor do bem, o conserto ou a devolução.

Veja o verbete dano moral e o guia seguro no Juizado Especial.

Prazo

O pedido de dano moral ligado à recusa segue, em regra, o mesmo prazo do pedido principal contra a seguradora: 1 ano da recusa (art. 126, II, da Lei 15.040). No seguro residencial, o TJCE já estendeu a prescrição anual ao dano moral fundado no inadimplemento do contrato. Leia também prazo para acionar o seguro de celular e a garantia.

Perguntas frequentes

Toda recusa indevida gera dano moral?

Não. O TJCE costuma exigir algo além do descumprimento: tempo perdido, várias tentativas, produto essencial, descaso.

Quanto costuma ser o dano moral nesses casos?

Na base verificada, entre R$ 500,00 e R$ 6.000,00, com frequência entre R$ 1.000,00 e R$ 3.000,00. Esses valores descrevem decisões passadas e não servem de previsão para nenhum caso.

O que é desvio produtivo?

É o tempo útil que o consumidor perde para resolver um problema causado pelo fornecedor. Vários acórdãos do TJCE o usam para fundamentar o dano moral.

Pedir dano moral alto ajuda?

Não. Pedidos exagerados costumam ser reduzidos e podem gerar custos se o recurso for perdido.

Outras decisões sobre o tema

Favorável ao segurado
TJCE · 1ª Câmara de Direito Privado · Apelação Cível nº 3002494-33.2025.8.06.0043 · julgado em 08/10/2026

Seguro de celular: exclusão de furto simples sem informação clara a idoso é abusiva

Favorável ao segurado
TJCE · 5ª Turma Recursal Provisória · Recurso Inominado nº 0046534-81.2015.8.06.0018 · julgado em 30/05/2020

Loja onde o seguro de celular foi vendido responde quando a cobertura é negada

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Conteúdo de caráter informativo, em conformidade com o Provimento nº 205/2021 da OAB. Não constitui promessa de resultado. Cada caso depende dos documentos e é analisado individualmente.

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