Art. 118 da Lei 15.040: a morte na carência do seguro de vida dá direito a quê?
O que diz o art. 118
Carência é o período inicial em que a seguradora não responde pelo sinistro. É legítima, mas a lei nova colocou limites claros:
Art. 118. Nos seguros sobre a vida própria para o caso de morte e sobre a integridade física própria para o caso de invalidez por doença, é lícito estipular-se prazo de carência, durante o qual a seguradora não responde pela ocorrência do sinistro.
§ 1º O prazo de carência não pode ser convencionado quando se tratar de renovação ou de substituição de contrato existente, ainda que seja outra a seguradora.
§ 2º O prazo de carência não pode ser pactuado de forma a tornar inócua a garantia e em nenhum caso pode exceder a metade da vigência do contrato.
§ 3º Ocorrendo o sinistro no prazo de carência, legal ou contratual, a seguradora é obrigada a entregar ao segurado ou ao beneficiário o valor do prêmio pago, ou a reserva matemática, se houver.
§ 4º Convencionada a carência, a seguradora não poderá negar o pagamento do capital sob a alegação de preexistência de estado patológico.
Lei nº 15.040/2024, art. 118 (texto oficial). Conferido em 16/10/2026. Situação: vigente desde 11/12/2025.
Explicação parágrafo a parágrafo
- Caput: a carência é lícita no seguro de vida para morte e no de integridade física para invalidez por doença. Não alcança a morte ou invalidez por acidente.
- § 1º: sem carência na renovação ou na troca de contrato, mesmo que a seguradora seja outra. Quem migra de seguradora não começa do zero.
- § 2º: a carência não pode esvaziar a garantia e nunca pode passar da metade da vigência (num seguro anual, no máximo seis meses).
- § 3º: sinistro na carência obriga a seguradora a devolver o prêmio pago ou a reserva matemática, se houver.
- § 4º: com carência, a seguradora não pode negar alegando preexistência. É uma troca: ou carência, ou exclusão por doença preexistente (art. 119).
Como fica na prática
- Leia a apólice: qual a carência, para quais causas, e qual a vigência. Carência maior que a metade da vigência é ilícita.
- Se o seguro substituiu outro (mesmo de outra seguradora), não pode haver nova carência (§ 1º). Guarde a apólice anterior.
- Se a morte foi por acidente, a carência não se aplica.
- Se a seguradora negou por carência, ela deve devolver os prêmios ou a reserva (§ 3º).
- Se a seguradora fixou carência e depois negou por doença preexistente, a recusa contraria o § 4º.
A carência precisa ser informada com clareza e destaque (art. 48). Decisões do TJCE já afastaram carência mal informada. Veja carência.
O que mudou em relação ao Código Civil
O Código Civil permitia a carência no seguro de vida para morte, sem limites, e mandava devolver a reserva técnica:
Art. 797. No seguro de vida para o caso de morte, é lícito estipular-se um prazo de carência, durante o qual o segurador não responde pela ocorrência do sinistro.
Parágrafo único. No caso deste artigo o segurador é obrigado a devolver ao beneficiário o montante da reserva técnica já formada.
Lei nº 10.406/2002 (Código Civil), art. 797 (fonte oficial). Conferido em 16/10/2026. Situação: revogado pelo art. 133 da Lei nº 15.040/2024, com efeitos a partir de 11/12/2025.
A lei nova cria quatro limites que não existiam: o teto de metade da vigência, a proibição de nova carência na renovação ou troca, a devolução do prêmio (e não só da reserva) e a proibição de alegar preexistência quando há carência. Também estende a carência à invalidez por doença. Para contratos anteriores a 11/12/2025, valem o art. 797 do Código Civil e o CDC.
Decisões sobre carência
O TJSP, aplicando o art. 118, validou a negativa por morte natural nos primeiros 90 dias, com cláusula clara e informada:
Morte natural na carência de 90 dias: negativa válida com cláusula clara
O segurado morreu de causa natural dentro dos primeiros 90 dias de vigência do seguro de vida. A 35ª Câmara considerou a cláusula de carência clara, informada e usual nesse tipo de contrato. Com base no art. 118 da Lei 15.040/2024, manteve a sentença que validou a recusa.
"Cláusula expressa de exclusão de cobertura securitária em razão de morte natural nos primeiros 90 dias de vigência da apólice"
O TJCE também já considerou válida a cláusula de carência e manteve a improcedência:
Morte durante a carência: cláusula válida afasta o pagamento do seguro de vida
Os beneficiários pediram a nulidade da cláusula de carência e o pagamento do seguro de vida, porque o segurado morreu durante esse período. Alegaram violação ao dever de informação e à boa-fé. O Tribunal considerou válida a cláusula, sem abusividade ou falha na prestação do serviço, e manteve a improcedência.
"MORTE DO SEGURADO DURANTE O PERÍODO DE CARÊNCIA . SENTENÇA DE IMPROCEDÊNCIA NA ORIGEM. ALEGAÇÃO DE VIOLAÇÃO AO DEVER DE INFORMAÇÃO E DA BOA-FÉ CONTRATUAL. VALIDADE DA CLÁUSULA CONTRATUAL."
O lado favorável depende da informação: carência mal informada ao contratar fez a seguradora responder, com dano moral (TJCE, 5ª Câmara de Direito Privado, Apelação Cível nº 0272548-62.2021.8.06.0001, julgado em 22/10/2025), e carência sem destaque não afastou a cobertura de desemprego no prestamista (TJCE, 2ª Câmara de Direito Privado, Apelação Cível nº 0282961-03.2022.8.06.0001, julgado em 25/02/2026). Mais em jurisprudência de seguro de vida.
Pontos em aberto
- Se a devolução do prêmio (§ 3º) ocorre automaticamente ou depende de pedido. A lei diz que a seguradora "é obrigada a entregar".
- Como se aplica o § 1º quando a renovação muda o capital. A lei proíbe nova carência; o aumento de capital pode ter tratamento próprio, como ocorre no art. 120, § 1º.
- A aplicação do § 4º a contratos anteriores a 11/12/2025, renovados depois. A questão não está pacificada.
Perguntas frequentes
Qual é a carência máxima do seguro de vida?
Nunca mais que a metade da vigência do contrato (§ 2º), e sem esvaziar a garantia. Num seguro anual, no máximo seis meses.
Troquei de seguradora. Tenho nova carência?
Não. O § 1º proíbe carência na renovação ou na substituição, ainda que a seguradora seja outra.
A morte foi na carência. A família recebe algo?
A seguradora deve devolver o prêmio pago ou a reserva matemática (§ 3º). E a carência não se aplica à morte por acidente.
Com carência, a seguradora pode alegar doença preexistente?
Não. O § 4º proíbe negar o pagamento por preexistência quando foi convencionada carência.
Outras decisões sobre o tema
Carência mal informada ao contratar: seguradora responde e há dano moral
Carência sem destaque não afasta cobertura de desemprego involuntário
O seguro de vida foi negado por carência?
Envie a recusa, a apólice e o protocolo do aviso de sinistro. A conversa é direta com o advogado.
Conteúdo de caráter informativo, em conformidade com o Provimento nº 205/2021 da OAB. Não constitui promessa de resultado. Cada caso depende dos documentos e é analisado individualmente.
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